Cândido, ou o Optimismo

Sempre gostei muito de ler. Foi um hábito cultivado pelo meu pai à minha irmã, e por ambos a mim. Não sou esquisita, leio um pouco de tudo desde que os livros sejam cativantes. Embora deteste fazê-lo, já cheguei a pôr livros de parte sem os terminar por serem quase impossíveis de ler, tal não é o aborrecimento. É raro isto acontecer pois estou sempre à espera que a página seguinte seja espectacular ou, pelo menos, menos má que a anterior. E se não for a seguinte, será certamente a que vem depois dessa. Claro que estes livros por terminar ficam num local especial para que, num dia de coragem, volte a pegar neles.

Com o último livro que li, Cândido, ou o Optimismo, tal não aconteceu. Adorei o livro e li-o o mais rápido possível nas minhas viagens de metro. Foi publicado pela primeira vez em 1759, com uma estratégia engenhosa pensada pelo seu autor, Voltaire. Por ser um livro satírico, cheio de subtis (ou não) críticas sociais, políticas e religiosas, Voltaire sabia que o mesmo seria censurado e rapidamente proibido. Tomou, portanto, duas precauções: publicá-lo em vários países em simultâneo, para que fosse mais difícil controlar a sua distribuição, e utilizar o pseudónimo Senhor Doutor Ralph. Assim, e embora quase todos os intelectuais do século XVIII soubessem que o livro era de sua autoria, Voltaire não poderia sofrer represálias. E esperto foi ele, considerando o reboliço que o livro provocou, o sucesso de vendas que foi e a quantidade de países que o proibiram.

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Este livro conta a história de Cândido um jovem que conhece várias facetas do mundo com a perspectiva, passada pelo seu mentor Pangloss, de que tudo vai pelo melhor e tudo é como deve ser, não podendo ser de outra maneira, pois tudo foi criado para o melhor fim possível. Portanto, tudo no mundo é o melhor possível. Esta perspectiva (claramente criticada por Voltaire) tem como base o pensamento de Leibniz, que defende que tudo é de facto o melhor possível em todos os mundos, pois é resultado do trabalho de um Deus omnipotente e omnisciente, que não criaria deliberadamente um mundo imperfeito, se um melhor pudesse existir.

A meu ver, o livro é uma pequena odisseia cómica. Cândido passa por um sem número de desafios e situações complicadas, cada uma pior que a anterior, tendo sempre algo de bom a acontecer em seguida, em jeito de “ora que bela merda que tudo estava, mas afinal tudo se resolveu pelo melhor”. É um ciclo ininterrupto de tempestades e bonanças à volta do mundo, onde existe até referência ao terramoto de Lisboa de 1755 – referência acompanhada de, claro está, uma muito pequena crítica (ou não) à Inquisição, à Universidade de Coimbra (ou, na verdade, ao seu papel de importância em Portugal nesta época) e aos autos-de-fé. Aliás, o terramoto terá até sido uma das motivações deste livro. Será necessário dizer que a obra foi proibida por cá, dando ainda mais razão à censura criticada por Voltaire?

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Fica a sugestão de lerem este livro, pequeno e inteligente, que chama a atenção para tantas questões importantes. Para mim, é uma forma diferente de tomar consciência e perceber que, embora elas existam, não somos detentores de todas as desgraças do mundo, sendo também uma boa forma de compreender um pouco melhor Voltaire e a sua posição em relação a estas questões sociais (e humanitárias), políticas e religiosas.

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